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DGABC (4) - os personagens - Beppo Moratti

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O personagem Beppo Moratti surgiu no meu retorno ao Diário do Grande ABC, em 2002, quando o diretor de Redação era o amigo Irineu Masiero. Houve outros personagens, criados para o DGABC, mas Beppo Moratti caiu definitivamente nas graças dos leitores. 

Anos depois, quando já havia saído do jornal, lembro de ter recebido a visita de um leitor que gostaria de conhecer "pessoalmente" o Beppo e tinham lhe dito que eu "conhecia" o velho italiano.

O nascimento do Beppo surgiu do meu desejo de recriar o personagem Juó Bananère, pseudônimo do escritor, poeta e engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado. Ele escrevia crônicas naquele patois característico dos italianos que viviam em São Paulo. 

Tomei conhecimento das crônicas de Juó Bananère, quando trabalhava na Revista Escrita. Os textos eram deliciosos. Muito divertidos e fiquei com aquilo na cabeça. Sabia que poderia fazer algo parecido em algum momento. Era só lembrar das conversas dos meus avós, descendentes de italia…

DGABC (3) - os personagens - Paola Porto

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Uma tarde, estava na Redação do Diário do Grande ABC, quando fui chamado pela então diretora executiva Cuca Fromer, irmã do titã Marcelo Fromer, morto por um idiota de motocicleta em 2001. Cuca me pediu para escrever uma coluna com pseudônimo feminino. O DGABC precisava ampliar o número de colunistas. Ela me pediu um texto para avaliar. Sentei no computador e fiz uma coluna "sob a ótica feminina". Cuca aprovou. Achou engraçado. Faltava agora batizar a nova "colunista".

Foi feita uma "eleição" na Redação e a editora Rosangela Espinossi venceu com a sugestão de chamar a "nova colunista" de Paola Porto. Mais tarde, eu receberia um e-mail simpático de uma Paola Porto homônima. Era uma travesti de Curitiba (PR)...

A primeira coluna de Paola Porto a tornou famosa e, ao mesmo tempo, odiada. Acredito que ninguém em todo o ABC chegou a ser tão odiada como Paola Porto. Em 1994, quando Ayrton Senna morreu naquele acidente em Ímola (Itália), a população en…

DGABC (2) - reportagens especiais

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No Diário do Grande ABC, dirigido por Alexandre Polesi, produzi reportagens especiais, algumas delas de longa metragem. Lembro de uma matéria investigativa sobre um vereador da bancada evangélica de Santo André, que levou seis meses para ser concluída.

O parlamentar tinha criado uma "indústria de araras", que são empresas criadas para aplicar fraudes mercantis, causando danos nos fornecedores. As "empresas" estavam nos nomes de "laranjas", pessoas próximas ao vereador. Essas "empresas" realizavam diversas compras. Os produtos eram depois revendidos e - quando o fornecedor tentava receber - a "empresa" e seu "laranja" já haviam sumido no ar.

Depois de meio ano de apuração, conseguimos chegar no resultado final, que apontava a existência de várias "araras", com os respectivos nomes dos "laranjas" - todos eles convergindo para o nobre vereador. Até o pai do parlamentar aparecia como "presidente" de …

O FIM ESTÁ PRÓXIMO

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O Diário de S. Paulo pode ser mais um impresso que deixará de circular na cidade. Muito em breve! Os funcionários não recebem salários desde 20 de agosto. Decretaram greve, na terça-feira, 10 de outubro. O prédio na avenida Marquês de S. Vicente, 1011, na Barra Funda, à noite, é pouco visível. Não há holofotes sobre o logo do jornal. É um lugar escuro, sinistro. 

Dentro, a Redação está quase vazia. Poucos profissionais circulam por lá. Os telefones não tocam. É uma Redação silenciosa. Ninguém faz chamadas, nem as recebe. A central telefônica está queimada. A situação não é nova. Em janeiro, não havia papel nos banheiros e faltava até água potável na Redação. "A empresa tem sido abastecida eventualmente por caminhões-pipa", afirmava uma reportagem da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). É um final melancólico para este título que substituiu o centenário Diário Popular.

Relembrando:  - Em 1988, Rodrigo Lisboa Soares, que sonhava em vender hambúrgueres em Miami (EUA) e er…

DGABC (1) - A tarde em que encontrei Pelé

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Em dezembro de 1992, estava de volta ao Brasil, com a tese de doutorado escrita, aguardando uma data para a defesa. Arrumei um frila fixo na FT novamente, com a ajuda do amigo Wladyr Nader, que ainda editava o caderno de Cultura. Fui ao Ibirapuera para uma pauta e diante do prédio da Bienal encontrei Orlando Margarido, crítico talentoso, dono de um texto construído sempre com engenho e arte. Ele ficou sabendo que eu estava na base do frila e me deu uma dica importante. Era para eu conversar com Antonio Prada, editor de Cultura do Diário do Grande ABC, o DGABC. O jornal estava em uma fase de crescimento importante, investindo forte na infraestrutura e na Redação. Fui até o DGABC, na rua Catequese, em Santo André. Tive uma reunião breve com Antonio Prada, o Toninho, e fui contratado.

Assim, no dia 1º de janeiro de 1993, no primeiro dia daquele ano, comecei a trabalhar. Nesse primeiro dia no DGABC aconteceu um fato inusitado. Quando retornava para casa, o freio do Chevette 1983 falhou, …

O conservadorismo da Netflix

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Assisti ontem na Netflix Jogo Perigoso. Casal apimenta a relação com encontro sadomasô. Algemas, casa isolada, Viagra, clima perversivo. Quando terminou, lembrei de uma série de filmes produzidos pela conservadora Hollywood em fins dos anos 70 e 80. Em Vestida para matar, a mulher casada faz sexo casual com um desconhecido e descobre, depois da transa, que o parceiro tem doença venérea. À procura de mr. Goodbar, com a ótima Diane Keaton, uma professora que à noite frequenta bares para sair com vários homens é assassinada brutalmente por um ex-homossexual. Atração Fatal mostra o pobre Michael Douglas sofrendo o diabo nas mãos da maluca personagem de Glenn Close. Tudo porque ele era casado e foi arrumar uma amante.

Em todos esses filmes, a gente percebe o conservadorismo norte-americano pronto a castigar quem sai fora dos trilhos. Os anos 80 foram uma época de sexualidade exacerbada e repressão violenta. Em junho de 1983, Notícias Populares dava a manchete: Peste gay já apavora São Pau…

Como é viver na cadeia

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No exterior, um amigo que vivia em Brighton (Inglaterra) costumava me perguntar: "Quando você vai voltar para a cadeia?". A cadeia, no caso, era o Brasil. Corria o ano de 1982. Eu tinha me autoexilado e trabalhava como general help em um bed & breakfast. General help era o sujeito que fazia um pouco de tudo no hotel. Chegava às 7h. Ajudava a preparar o café da manhã. Arrumava as camas. Passava aspirador. Fazia as reservas dos hóspedes. Levava as malas pra cima e pra baixo. Às 13h, pontualmente, descia ao subsolo, onde tomava uma pint morna com o dono. Saía do trabalho e ia almoçar um sanduíche com a minha mulher no parque, se o tempo estivesse bom. Às 14h, entrava na escola. À noite, no apartamento que havíamos alugado, assistia à programação da BBC, sempre excepcional. Era uma vida gostosa a que eu levava no exílio. Era estranho, mas eu vivia melhor como faxineiro na Inglaterra do que como jornalista no Brasil. Não era só o salário que era melhor. Na época, sentia uma …